A número um

Viver Bem

Domingo, 04/01/2009

Ivonaldo Alexandre/ Gazeta do Povo

Ivonaldo Alexandre/ Gazeta do Povo /
Perfil

A número um

Depois de 34 anos na feirinha do Largo da Ordem, a tecelã Zélia Scholz abre sua história de lãs, corantes naturais e contos de fadas

Publicado em 04/01/2009 | Daniela Neves - danielan@gazetadopovo.com.br

Zélia Scholz, 77 anos, tem o orgulho de portar a carteirinha “número um” da feirinha do Largo da Ordem. Não que seja a feirante mais velha, ou coisa parecida, mas ela estava lá quando a feira foi montada, em 1974, para ajudar na revitalização do setor histórico de Curitiba, e foi a primeira a indicar onde queria ficar com seus tapetes e cachecóis. Escolheu a entrada da praça Garibaldi, na esquina do prédio da Fundação Cultura de Curitiba e da Rua do Rosário.

Naqueles meados dos anos 70, as barracas ocupavam apenas a quadra entre o Relógio das Flores e a Rua do Rosário, com 20 feirantes, no máximo, que produziam o mais legítimo trabalho manual. O “ponto” escolhido por dona Zélia para o negócio era a entrada da feira e ficava ao lado de um poste – que lhe fazia sombra naquela época em que só tinha mesmo um tapetinho no chão com algumas peças. E não é que vendia tudo? “Chamava a atenção dos turistas, que desde aquele tempo adoravam artesanato. Levavam ao menos uma peça, mesmo que fosse uma meia”, conta.

O ofício de tecelã Zélia aprendeu cedo, na pequena cidade de Jacutinga, no Sul de Minas Gerais. Criar ovelhas, tosquiar a lã, plantar algodão, colher, lavar, cardear (passar uma escova especial), tingir (com processos naturais) e tecer eram atividades feitas pela bisavó, que passaram para a avó, para a mãe até chegarem à Zélia, quando completou 14 anos. “Naquela época, era muito difícil encontrar roupa pronta. Meu avô era pecuarista e minha avó tecia para fazer roupa para a família”, conta. Como já gostava de arte, música e pintura, tecer tornou-se algo natural e prazeroso.

Nos anos 50 se mudou para o Norte do Paraná com a família, onde casou com o radialista José Wille Scholz, com quem teve seis meninos. Vinte anos depois mudou-se para Curitiba e com os filhos já criados, foi procurar uma distração no Centro de Criatividade do Parque São Lourenço: começou como aluna de cerâmica e saiu de lá professora de tear. “Não conhecia o valor do meu trabalho. Amava, mas não sabia que os outros se interessariam”, diz.

Até hoje, com 34 anos de feirinha e já bem longe do “marco zero” – agora são 1,3 mil barracas que ocupam seis quadras, espalhadas para cima e para baixo da área inicial –, Zélia continua encantando os freqüentadores da feira. Principalmente das crianças. Ela que já se parece com as vovós das historinhas infantis, leva a roca em que a Bela Adormecida espetou o dedo para a feira e conversa com os pequenos. “Gosto de incentivar a magia dos contos de fadas, porque não é sempre que eles veem uma fiandeira ao vivo e a cores, como das histórias”, diz.

Durante a semana, Zélia dá aulas particulares de tear e à noite produz suas peças. Sem pressa nem cobrança de produção. Nenhuma visita à sua casa-ateliê escapa de uma aula rápida de tear, acompanhada de bom papo mineiro. Ao ensinar como se coloca o algodão desfiado na roca, Zélia fala do material, das cores e aproveita para dar sua lição de vida: “Uma coisa é ver e a outra é olhar. Quando você trabalha e vê com os olhos da alma, descobre maravilhas: cores, formas, a lã macia”.

0 comentários: